
“Ouvi dizer que tu já superaste. Que os ossos de seu joelho já não doem mais, e que conseguiste, finalmente, largar o vício em cigarro. Ouvi dizer por ai, numa esquina qualquer, que tu achaste um alguém que não reclama de suas manias, ou do seu mau humor matinal. Disseram-me que tu voltaste a tocar violão nas rodas noturnas que acontecem nas praças na esquina da tu casa, e que seus sorrisos voltaram a abrigar o brilho que costumava deixar toda a parte feminina da cidade deslumbrada. Disseram-me que tu estás mais feliz do que jamais esteve, e que a responsável por tal felicidade é loira e tem um corpo de dar inveja. Recusei-me a acreditar, pois tu sempre disseste que preferia as morenas, mas acabei por me lembrar do tempo que já havia passado desde a nossa última conversa, e que seria completamente aceitável que teu gosto tivesse mudado. Perguntei-me, então, se alguma parte de ti ainda se lembrava de mim. Quis convencer-me de que tu não me esquecerias assim, tão depressa, mas algo em mim insistia em dizer que isso era exatamente o que havia acontecido. Quis ligar-te, e implorar por um pouquinho de carinho, um afago no ego, mas não liguei por medo de que a resposta não fosse a que eu desejava. Pus-me a olhar nossas fotos, agora empoeiradas e amassadas, e chorei. Chorei pelo tempo que passou rápido demais por nós, chorei por nossos caminhos que resolveram seguir para lados diferentes… Chorei por existir tanto de ti em mim, mesmo depois de tudo. E por eu ter sido só mais uma página no seu livro gigantesco. Chorei por não ter te proporcionado tudo o que tu merecias, e por saber que nunca mais teria a chance de fazê-lo. Chorei saudade, chorei nós dois. Desejei que tu estivesse ali, do meu lado, e me ajudasse a amenizar a dor que tomava conta de cada célula do meu corpo, mas você não estava. Chamei seu nome da varanda do meu apartamento, mas você não veio. As lembranças de ti ainda estavam em todos os cômodos daquele lugar, sua risada ainda ecoava pelo corredor e seu perfume ainda impregnava o ar, mas teu corpo, teu abraço, teus olhos profundos estavam longe do meu alcance. Eu me sentia um bebê tentando alcançar o brinquedo em cima da cama, e falhando miseravelmente. Te via, te conhecia, mas não te tinha. (…) Vamos culpar o destino por ter sido tão cruel conosco, e aliviar minha cabeça do pensamente de que, caso tivesse feito outra escolha, as coisas teriam saído diferentes. Vamos culpar a vida por ter nos levado para caminhos opostos, e nunca ter nos juntado novamente. Vamos culpar o amor, por permanecer dentro do coração, mesmo que o amado já tenha partido há muito tempo.” Samira B. (helples-s)
